Comentário Crítico ao texto:
SANTOS GUERRA, Miguel Ángel (2002). Como um espelho – Avaliação qualitativa das escolas, in Azevedo, Joaquim (org.) AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS – Consensos e Divergências, Porto: Asa, pp.11-31.
TAREFA: Comentário Crítico
IDEIA PRINCIPAL: A avaliação reflecte a realidade das escolas e permite que os protagonistas se vejam com clareza e rigor.
Dissociamos esta ideia em três alíneas:
- Abrangência do conceito de avaliação proposta
- Origem da decisão de avaliar
- Aspectos a considerar no desenvolvimento do processo
PALAVRAS-CHAVE: Avaliação; escola; compreensão; reflexão; mudança; decisão; melhorar práticas.
RESUMO:
Na perspectiva do autor avaliar as escolas com rigor implica conhecer a especial natureza e configuração que elas têm, tendo em conta o meio envolvente e a suas características específicas. As escolas devem impor a si próprias, formas de reflexão sistemática e rigorosa, sobre os projectos, de forma a saberem de onde partiram, onde estão e para onde pretendem seguir. Desenvolver os projectos, deixando-os ao acaso, sem que se questionem sobre qual o caminho que percorreram, os efeitos que produziram e que objectivos foram atingidos, conduz a uma avaliação dos resultados, desvalorizando todo o processo, podendo levar a conclusões distorcidas.
A avaliação deverá propiciar a compreensão necessária para garantir rectificações e despoletar a mudança. A reflexão que um juízo fundamentado exige leva à compreensão da natureza e do sentido das práticas educativas, e permite a modificação das normas de comportamento, das atitudes e das concepções que se têm sobre elas.
O texto mostra-nos o entendimento do autor sobre o âmbito do conceito de avaliação, no qual compreende uma avaliação contextualizada, que tem em conta os processos e não apenas os resultados, uma avaliação na qual são proporcionadas condições de liberdade de opinião, recorrendo a diversos métodos de análise, considerando que a escola é uma realidade complexa, na qual se desenvolve a actividade educativa num sentido mais amplo e social.
Na opinião do autor a avaliação não deve ter como finalidade emitir juízos definitivos, nem deixar-se arrastar pela mística dos números. O autor releva a importância da decisão em comparação com a origem da iniciativa de implementar a avaliação, dispondo uma sequência de possibilidades, do menor para o maior poder educativo. Salientando como opção mais rica a iniciativa de avaliação desenvolvida a partir do interior da escola, na qual são incluídos alguns facilitadores externos, cuja finalidade principal é conhecer, compreender e reflectir, tendo em conta diferentes perspectivas, com vista à melhoria da prática educativa.
O autor considera que a avaliação deve ser um processo planeado, pois exige que se conheçam as principais características da escola tais como: a dimensão, tipo, situação no terreno, níveis, configuração da planta, história recente, organização dos alunos, entre outros, de forma a poder-se constituir uma equipa, definir as questões de partida, planear a duração das várias fases, as técnicas e métodos mais adequadas para recolha de dados, bem como a entrega de relatórios informativos.
Implicar os elementos que integram a comunidade educativa no processo, cuja finalidade compreenderam à partida, na opinião do autor, poderá facilitar o desenvolvimento da avaliação. O foco de avaliação deve centrar-se no funcionamento holístico da escola e não em indicadores apreendidos de forma isolada. O texto realça também a importância da triangulação dos dados para analisar as discrepâncias, de forma que façam sentido. Por fim, relata os constrangimentos de redigir os relatórios de forma perceptível e negociável.

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COMENTÁRIO:
O texto é uma elocução sobre motivos que justificam a necessidade de promover uma cultura de avaliação nas escolas, pois a única que é realizada de modo sistemático está relacionada com a avaliação das aprendizagens dos alunos.
a. Abrangência do conceito de avaliação proposta
A abordagem do autor salienta a necessidade e a exigência de desenvolver uma cultura de planeamento de gestão, de uma escola, num processo sistemático de reflexão e análise sobre o seu próprio desempenho e funcionamento, ou seja em práticas regulares e contínuas de avaliação interna. Esta avaliação deve ter em conta o contexto no qual a escola se insere, pois a caracterização do meio pode evidenciar indicadores que influenciam o nível de conhecimentos, a motivação e a predisposição dos alunos face à escola, tal como não pode ser desprovida da caracterização dos espaços físicos, condições tecnológicas, forma de organização, recursos humanos, ambiente na escola, actividades pedagógicas e projectos, pois constituem especificidades que a tornam única.
A perspectiva de avaliação defendida pelo autor pode ser uma oportunidade para que as escolas se conheçam e a partir daí desenvolvam a capacidade de provocar alterações, com base nas experiências do passado e do presente, resolvam com criatividade os seus problemas ou seja, devem analisar e reflectir sobre os seus êxitos e fracassos, para daí retirar ensinamentos determinantes para o processo de mudança, uma vez que implica necessariamente responsabilização e em simultâneo a prestação de contas.
O autor é crítico da visão simplista da avaliação baseada nos resultados dos alunos, apenas alicerçada em números e estatísticas, à semelhança dos rankings, ainda que elaborados no interior da escola, pois são apresentados como resultados descontextualizados, que distorcem a realidade da escola.
b. Origem da decisão de avaliar
Até há pouco tempo, em Portugal, não eram conhecidos, muitos casos de práticas de auto-avaliação nas escolas. Nos últimos anos têm surgido alguns casos, nos quais a origem despontou, mais por imposição e pressão superior e para cumprimento dos normativos em vigor, no âmbito dos quais a oportunidade criada tem sido “agarrada” de diversas formas e perspectivas. Umas escolas limitam-se a cumprir os normativos, outras aproveitam esta possibilidade como um trampolim para a mudança.
Na opinião do autor, a qual subscrevo, a prescrição/imposição, não é a via mais adequada, no entanto, penso que é vantajoso e legítimo que sejam definidos normativos com indicadores, com o intuito de facilitar o processo, mas que considerem o espaço suficiente para que a escola possa conduzir o processo, com as devidas adaptações e especificidades. A situação ideal seria que a decisão de avaliar surgisse no seio da escola e que fossem envolvidos e ouvidos todos os intervenientes, de forma a que fosse um processo aceite, sentido e assumido pela comunidade escolar, como um instrumento de gestão, com vista à tomada de decisão e melhoria de práticas. Mas é legítimo que se o processo não é despoletado pela escola, seja pressionada externamente, mesmo correndo o risco de os resultados e as transformações não atingirem as mesmas proporções. A escola, enquanto organização, tem de pensar-se a si mesmo, mudando e aprendendo no seu interior, com a sua própria experiência, não por imposição ou prescrição, pois quando o processo é imposto pode ser entendido como uma ameaça pelos intervenientes.
b. Aspectos a considerar no desenvolvimento do processo
O autor aborda neste sub-ponto os aspectos que, no seu entender, são fundamentais no desenvolvimento do processo, desde o planeamento, duração, selecção de métodos e técnicas, implicação dos diferentes intervenientes, negociação, focos de avaliação, triangulação de dados e redacção dos relatórios.
O texto salienta a importância do planeamento do processo, pois é fundamental a definição clara dos objectivos que se pretendem atingir, do objecto e áreas (organização, instalações, actividades, etc…) de avaliação sobre as quais vai incidir, das dimensões de avaliação que irão ser privilegiadas, de modo que isso se traduz na identificação e selecção das técnicas e criação instrumentos e indicadores adequados ao contexto, a utilizar durante a fase de recolha e análise de dados. Assegurando a participação activa no processo de todos aqueles que, dentro da escola, possam representar as diversas sensibilidades e pontos de vista sobre a sua qualidade, poderá ser um factor decisivo para o desenvolvimento do processo. O processo de avaliação deverá assentar numa atitude permanente de diálogo, de procura de consensos, de negociação entre as diferentes perspectivas existentes no seio da comunidade educativa, de interpretação crítica e aberta dos resultados obtidos.
O processo de avaliação nas escolas pode ser uma possibilidade para promover um maior envolvimento dos diversos actores na promoção de melhores práticas. Por isso, é tão importante a apropriação pelos elementos da comunidade educativa de uma cultura de avaliação. A sua ausência poderá aumentar o risco do processo de forma a que trabalho desenvolvido não tenha implicações significativas numa melhoria real e efectiva da qualidade oferecida pela escola. Por outro lado, corre-se o risco de confundir avaliação com recolha e tratamento de informação estatística, valorizando demasiado a análise estatística dos resultados e descurando os processos, recursos, objectivos, actividades entre outros factores. Pois a análise estatística não reflecte a dimensão humana, as condições de aprendizagem, o meio social em que os alunos estão inseridos e também as actividades experimentais, entre muitos outros.